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No Principio Era o Verbo — Babylon by Gus vol 2 — Black Alien

  • Jeff Ferreia
  • May 5, 2017
  • 6 min read

Demorou 11 anos para um trampo novo do Gustavo Black Alien sair e ganhar os ouvintes. 11 anos desde o seu sucesso “Babylon by Gus volume 1 — O Ano do Macaco”, considerado por muitos como um dos melhores álbuns do rap nacional, o que fez a espera ser maior ainda.


A inspiração para o título veio do livro de João, capítulo 1, versículo 1: “No Princípio era o Verbo”, que viu na Bíblia ganhada de presente do amigo André Ramiro, o Matias do filme “Tropa de Elite”, que também faz um rap. A capa do disco é inspirada no filme “O Sétimo Selo” de Igmar Bergman, onde Gustavo joga xadrez com a morte, numa bela metáfora, e também no filme “O Selvagem dá Motocicleta” de Francis Coppola.


O disco tem 12 faixas e conta com as participações especiais de Edi Rock, Partem, Kamau, Céu e Luiz Melodia, em letras que trazem good vibes e mostram uma nova fase na carreira do poeta.


O disco abre com a intro “1972", numa poesia falada em cima de um instrumental Black Alien alerta como será daqui pra frente:


“Ao pensamento, eu dou voz, ao infinito e após Passo, não espero, passo a passo, supero E quem sou eu, irmão, pra passar sermão? Sou eu, pô, seu irmão! O verso estende a mão, vê se me entende, então Amigos antigos, agora, são mães e pais Os novos estão juntos, na mais em santa paz”


Na faixa dois, os BPM sobem, “Rolo Compressor” que traz uma gaita do jazz e do blues, fonte que Gustavo sempre bebeu, na mensagem continua a alerta os ouvintes de como será seu rap. (A música ganhou clipe com várias imagens de um show do Charlie Brown Jr no Rio de Janeiro, num momento que Speed é Black Alien subiram ao palco, junto também com Nino Rap dá banda Nocaute, o vídeo uma homenagem aos parceiros que se foram: Speed, Chorão, Champignon e Nino Rap):


“Nego espera que meus versos fujam do que nego espera velha guarda Golden Era no ouvido da galera Me amam abertamente Me odeiam discretamente Dizem que é espiritual, o outro diz O que é da mente Música te faz pensar enquanto ta enchendo a pista Nada melhor que o rimar, enquanto Jah administra Nasci prata dos 70, sou o ouro dos 90 O diamante do século 20, brilha e representa”


Na música seguinte a cantora Céu chega junto para “Somos o Mundo”, onde Mr Black traz seu lado romântico, que conhecemos no seu trampo de estréia, numa letra que fala sobre a casa sozinha para um casal apaixonado:


“Na vitrola uma bossa alternando Jorge Ben, Amy Winehouse, Aretha, Adele. Eu beijo a sua pele que arde do sol do final de tarde que pela janela invade, eu pus no freezer aquele vinho enquanto toca Al Green, branco e bem gelado eu sei que você gosta assim”


A quarta faixa é “Rock n’ Roll”, mas longe ter as guitarras distorcidas, é no boom bap pesado, o título se dá por Black Alien estar selecionando alguns vinis para levar do Rio para São Paulo, e dentre os gêneros jazz, MPB, reggae e etc, o maior volume eram o de discos de rock, então: “Eu sou rock n' roll" pensou Gustavo, e para track chamou o rock em pessoa, Ed Rock, o negro drama do Racionais MC’s:


[Black Alien]

“A minha fonte abundante de versos Jah faz com que não seque Vida que segue e é aquilo, rap e reggae Poesia em movimento Ou movimentar um quilo? Somos feitos das nossas escolhas Alguns momentos são tipo assim: Humm… Melhor ficar na encolha Escrevendo até acabar a tinta da caneta E no dedo criar bolha A bereta em mais um beat e eu viro a folha”

[Ed Rock]

“Eu sou Rock, eu sou black, eu sou samba Nascido em São Paulo, sou cria do rap bamba Eu sou daquele tempo que só nós acreditava Com walkman no ouvido, adormecia e bolava Sonhava em ser Thaíde, os cara um por um Black Juniors, Mc Jack, Dj Ninja e Dj Hum”


A track 5 é o single “Terra”, que o poeta já vinha trabalhando a divulgação antes do lançamento do álbum, com letra introspectiva e carregada, com vários mantras Black Alien dispara:


“Os assuntos que agora abordo Vêm do conjunto de informações que colho desde que acordo Surpreendentemente atuais São versos que contêm verdade e não datam jamais Estamos mortos quando paramos de sonhar E somos jovens enquanto temos ideais Essa aqui é uma carta falada Para a geração da molecada Que serão os novos mães e pais”


Kamau e Parteum chegam junto para a próxima música, “Um Skate no Pé”, em que Gustavo, nessa nova fase, dedica uma faixa para o esporte que pratica, e mais uma vez a lembrança dos manos que se foram, Chorão e Speed, dessa vez citados na letra:


[Black Alien]

“ Vou remando atrás do vento que pedi para Deus Falou de rap e skate, então, estou entre os meus Não tem como descrever o modo como me sinto Quando estou com a minha gangue que usa cadarço de cinto”

[Parteum]

“Em ’05, Chorão disse: “amigo meu, eu trato bem e pago o dobro” Quem vê tombo, não vê coração Ogro na sessão fica gentil quando se acerta A linha é reta (o eixo mole) Irmão, entenda, a vida é dura, mas é filme, cheiro do ralo A cura vem do chão, pegando impulso Trio miraculoso, equilibrando um sonho avulso”

[Kamau]

“ Foi double-deck e play, rec no tape deck Bem antes do mic check e andar nessa com Parteum e Black Muita destreza pela pedra portuguesa No gás, tipo Speed Freaks, sem pique-nique nessa mesa Meu lifestyle é do bom, desde o Thronn Inspiração na sessão, mais que dom, play no som”


Quem é Você?” é próxima que conta com Luiz Melodia, numa letra melódica que lembra o poder de celebração do reggae e timbres de vozes do ragga, como o próprio Black canta, é uma oração:


[Black Alien]

“Responsável pelas coisas que eu prezo Quando eu escreve eu rezo Sempre uma oração para Jah na contenção E uma intenção seguida de ação Eu peço: paz por onde eu passo Arrumar o quarto para arrumar o mundão”

[Luiz Melodia]

“Tem dinheiro na manilha, na sacola, na braguilha Malha grossa, malha fina Dá pra recompor favelas Dá pra implodir Brasília Rezar saúde, educação e plenitude Rogar por boa juventude E tatuar no peito fé, a fé”


Na próxima faixa, “Falando do Meu Bem”, Gustavo volta com seu romantismo, diminuindo a velocidade das batidas em uma daquelas letras para se ouvir com ela:


“Você me conquista diariamente Sensação urgente de estar só a gente Ah meu amor tenho várias no pente Seu nome e meu gravados no pingente Inverno à inverno, tá sempre quente Eletricidade, em choque com a gente Você ao meu lado eu sei para onde eu vou Se bem que também me perco no seu flow”


Seguindo o disco temo a música “Identidade”, que traz um refrão marcante, principalmente pelas guitarras inseridas, em letra que diz:


“Tempestade que virão, tempestades de verão E eles sempre no encalço, a cada voo que eu alço Estardalhaço, ostentação, calúnia e difamação E eles sempre no encalço, a cada voo que eu alço”


A faixa 10 é “O Estranho Vizinho da Frente” que Black Alien batizou pois achou que seus vizinhos pensam isso dele, que ele é um estranho, principalmente quando está em movimentações dentro de casa no processo de composição:


“O meu pior inimigo sou eu, disso eu sei bem Mas você quer saber? Melhor amigo, também Corro do tédio, olho pro lado, eu mudo o mood Meu remédio controlado é ouvir o Rappin’ Hood O tempo passa, tem mais “antes” que “depois” No Princípio Era o Verbo — Babylon by Gus: Volume Dois”


Finalizando o disco, essa é a última música, mas não é a última faixa, trata-se da belíssima “Homem de Família”, que já rolava na internet antes do lançamento do álbum, porem com outro arranjo. Nessa track Gustavo fala da família, desde os primeiros passos da criança até o vovô:


“Os primeiros passos No cabelinho das meninas, os primeiros laços No supermercado de carrinho Crescer cercado de carinho Amarrar sozinho os cadarços

Os sustos e as alegrias, as correrias Pra dar ponto pra pomada de alergia O primeiro convite para a reunião de pais Transmitir a ética e os valores morais”


E fechando de vez Gustavo Ribeiro é o “Cidadão Honorário”, filho de Rui, que é filho de Mário e primogênito de Gizelda, neto de Joaquim e Juraci Gustavo… Uma faixa também dedicada a familia, com depoimentos poeticos pessoais, introspectivo, na mesma base de 1972, o disco termina como começa, com poesia pura de ponta a ponta:


“ Tenho alguns esqueletos no armário A luta, contínua, continua e não tem páreo A laje da minha avó é o meu Monte Sinai Linguagem pros surdo-mudos, mando versos nos sinais Paz”

Musicalmente falando, o Babilon by Gus volume 2 é um disco de rap, mas viaja pelo blues, jazz, R&B, rock n’ roll, ragga e até com pitadas de bossa. Produzido por Alexandre Basa, que também produziu o volume 1, ajudou Black Alien na harmonia dos beats que variam entre melódicos, suaves e punk que encaixaram como um jab nas letras do alienígena que juntou num caldeirão oração, romance, fé, reflexões sobre si e o mundo como o vemos, com convidados que roubaram a cena sejam eles Céu, Luiz Melodia, Edi Rock, Parteum ou o Kamau.

 
 
 

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